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Passageiros…

Posted in a vida como ela é with tags on 06/17/2010 by André Vianco

É estranho olhar para trás e não te ver mais lá. Não faz uma hora que você me ligou pedindo para te levar ali, porque não estava se sentindo bem. Eu cheguei, você viu? Digo para mim que sim, porque penso que deve ser muito opressor passar por isso se sentindo sozinho. Ainda escuto sua risada aqui do meu ladinho e sinto o calor do seu jeito sempre amigo. Sempre amigo. Não lembro de brigarmos de verdade nenhuma vez depois que me fiz adulto. Nenhuma vez. Eu olho de novo só para ter certeza. É, você ainda não está ali, do meu lado. Por que olho tantas vezes sabendo que é assim mesmo que acontece? Olho porque parece mentira. Parece que não é verdade que alguém simplesmente, em questão de minutos, passe a não existir mais fisicamente ao nosso lado. Uma pessoa importante simplesmente não desaparece. E todo mundo é importante para alguém. Para mim você esta naquele top 10, sabe. Provavelmente, numa noite que eu chorei sem parar e mamãe estava cansada (como se elas se cansassem, hahaha) foi você quem ficou comigo. Eu me lembro da sua mão nas minhas costas, me empurrando, me soltando, quando aprendi a andar de bicicleta. E lembro de nunca me negar um doce quando ia contigo ver os amigos num bar. E de eu ficar fascinado com os brilhos das bolas de bilhar, brilho nos olhos igual ao brilho que vi nos seus quando te mostrei uma brochura, um calhamaço de folhas que eu chamei de livro. Sua risada será minha herança, seu carinho para com todos, todos, todos, será seu legado. Agradeço por ter me dado um pedaço desse coração enorme que é cheio de compreensão. Talvez por compreender demais eu pareça agora um pouco frio, porque eu pouco chorei enquanto cuidava de você e de suas coisas para que fosse em paz. Mas a tristeza e a saudade estavam lá, sim, no pensamento. É que como você é um homem de festas, risos e alegria, sempre elevando o humor das pessoas, achei justo te honrar com sorrisos e não com lágrimas. Isso é compreensão que nos faz mais frios. Mas hoje tenho vontade de ser quente e não compreender nada e chorar um bocado. Não por conta da grande tragédia em si. A grande tragédia é inevitável e chega para todos nós. Todos nós que acordamos todos os dias, que respiramos, que nos preocupamos com as coisas e montamos nossos enredos em cima desse palco de ilusão. A vida é uma ilusão onde imaginamos que governamos nossos destinos esquecendo que somos impelidos apenas por nosso relógio biológico e nossos programas encravados em nosso DNA. Acordamos, trabalhamos, estudamos e voltamos para casa. Nos preocupamos demais com o que não devemos nos preocupar. Queremos demais o que não precisamos ter. A ignorância em geral é uma benção, porque quando começamos a entender por demais as engrenagens desse cenário, o vazio nos persegue galopante e som desse galope vai se tornando ensurdecedor. Por isso que hoje quero ser quente e chorar, nada compreender, nada pensar. Por um detalhe que sim, é importante, queria que você soubesse, meu velho, soubesse que em sua hora, sim, eu estava ali, do seu lado, olhando por você, pedindo por você, torcendo por você e que mesmo com um desfecho sombrio, contudo natural a todos nós, que eu estive ao seu lado, que beijei sua testa quente, abracei seu corpo morno e que cuidei ainda dele. E que saiba que toda vez que eu olhar para trás e não vê-lo ali não significa que não mais exista. Enquanto eu existir você sempre existirá, pois estará quente no meu coração e presente no meu sorriso tão igual ao seu.