Nós, na Páscoa

Um ano diferente, mas a mesma perseverança

Nós, na Páscoa!

Muitos de meus leitores e alunos sabem que sou uma pessoa que ama tocar fundo na alma de quem lê minhas linhas. Persegui, com fé e audácia, o sonho de me tornar escritor, inventor de histórias para povoar o imaginário das pessoas.
O primeiro livro que escrevi, em 1998, foi o famoso “O Senhor da Chuva” que veio a se tornar meu terceiro livro publicado, o segundo a ser lançado pela editora Novo Século, lá atrás, em 2001.
Por conta da temática de “O Senhor da Chuva”, recheado de anjos e demônios em sua trama atrás de uma alma que buscava se redimir, muitos leitores chegaram a pensar que eu era um autor de doutrina evangélica. Não sou nem um pouco evangélico, no sentido de ir a igreja, católica ou protestante, Bola de Neve ou Lagoinha. Eu só acredito que existe uma força maior, absoluta em nosso universo, mas não creio numa figura que convoca a obediência através do medo e que saiba o CPF de cada brasileiro ou que fez Marcos em sua viagem para Austrália para se encontrar com Jess, uma pessoa que ele conheceu pelo aplicativo.
Não obstante, talvez até paradoxalmente, sou um homem de fé. Tenho fé e acredito que a fé é uma das coisas mais belas do enigma humano.
Também é raro eu expor esses meus pontos de vista sobre religião que acionam dispositivos de fúria parecidos quando falamos de futebol ou política, mas gosto de lançar positividade aos meus leitores, meus alunos e seguidores e hoje é um dia especial no calendário de muitas crenças, hoje é o domingo de Páscoa num momento muito excepcional e nossas vidas. Essa páscoa está em cada lar dessa rocha flutuante nesse exato momento em que você lê essas linhas.
Ampliar a fé, a cordialidade e entender que a pessoa sentada ao seu lado, com quem você convive há anos e que pode estar descobrindo só agora quem essa pessoa é, é uma necessidade intrigante.
Sobre a fé, acredito que uma das coisas mais tristes que podemos fazer é apagar essa centelha mágica que depois se torna uma labareda que incendeia nossas almas e faz com que a gente se mova rumo a qualquer objetivo e que acredite que essa Força universal está andando conosco, (olha só!) num ato de fé não deve ser nunca desconstruída. Temos que ter fé em nós, por nós e, algumas vezes, emprestar nossa fé para o próximo.
Logo eu acho plausível e justo que todos os deuses e deusas que cada cultura ancestral fez germinar em seus pequenos bandos na aurora dos tempos, quando havia ainda muita escuridão e essas tribos, bandos, primeiros vilarejos, precisavam de respostas que ainda não chegavam da especulação e do estudo científico… eles precisavam criar uma razão para que certos fenômenos se manifestassem não só para criar sua fé como para passar essa centelha de crença de que alguém que vivia eternamente lá em cima, que vinha da mata, das árvores e da Natureza, ou mesmo nas entranhas da Terra, cuidava da gente. E seguiam com fé, acordavam um dia após o outro fazendo preces as suas divindades e encontrando conforto para seguirem em frente e cá estamos.
Apesar dessa introdução longa, não é sobre mim esse texto, é sobre nós. Nós todos que viajamos a bordo dessa nave imensa, dessa rocha esférica que um dia foi medida por um homem genial usando uma vara e a sua sombra para determinar a circunferência do nosso planeta, da nossa casa (que andamos maltratando um bocado já faz tempo).
É um texto sobre a nossa fé conjunta que nos une mais uma vez, de forma que nunca vi unir e nos igualar antes.
Escrevo essas linhas porque tenho fé que amanhã todos que gostam de escrever também escreverão mais. Quem gosta de jogar vôlei, jogará mais. Quem quer fazer gastronomia, fará. Quem ama pular na rave, vai pular de novo pertinho daquelas caixas ensurdecedoras. Quem sonha em ter uma lojinha, vai conseguir.
Seja qual for a sua religião, seja qual for o bem vindo deus ou deusa a que devota suas orações, suas preces, persista, continue acreditando. Estamos aqui, no mesmo planeta, vivendo o mesmo confronto.
A humanidade já foi fustigada antes e, apesar da dor, muitas vezes esses resultados retumbantes da Natureza nos levou a evoluir, a sermos mais resistentes e resilientes. A termos fé e razão para darmos o passo seguinte. Diferente do passado, hoje o que acontece na Austrália, com Marcos que foi procurar Jess, pode ser visto ao vivo, mas hoje, nessa Páscoa, data tão energética e tão simbólica, não assistimos uma história de amor. Assistimos, via links de internet, vídeos de celulares, nosso mundo se resguardar em suas casas, muitos com medo, mas também um número infinito e grato de pessoas que sabem que esse isolamento é estratégico e necessário, e, por isso, hoje muitos terão um almoço de Páscoa muito diferente, com um celular na cabeceira da mesa, com suas câmeras e microfones acionados, com rostos de entes amados do outro lado de qualquer lugar nesse planeta.
Essa mensagem que escrevo agora é só para dizer “Boa Páscoa”. Espero que tenham um dia brilhante e crentes de que amanhã tudo pode acontecer, inclusive, melhorar.
A fé, que é tão bela, me parece que nunca foi tão necessária num mundo tão conectado.
Continue com fé. E em suas preces, arrume alguns minutos para agradecer também por aqueles que não poderão hoje desfrutar do almoço de Páscoa, porque estão exaustos em hospitais do mundo inteiro, no front dessa batalha mundial, dando alento, remédio e lutando com toda fé do mundo pelos que estão enfermos, sem vacilar em desempenhar seu papel. Dirijam hoje sua fé e seus pedidos não apenas para sua família, mas para a família de toda a cadeia de profissionais que precisam ir para as ruas e para os hospitais (muitos com muito medo, mas com fé de que estão fazendo o que é certo, e a fé deles é tão forte que transmuta o medo em ação e agir é algo corajoso!) para que nós possamos estar dentro de casa nesse momento.
Tenha fé. Venha ela de onde vier. Tenha fé. Amanhã, como disse antes, pode ser tudo, inclusive, melhor.

Com amor, de um escritor de livros assombrados de Osasco,

André Vianco Silva

Publicado por André Vianco

Escritor, roteirista, palestrante e dramaturgo brasileiro, de Osasco - SP, autor de livros de terror e fantasia, como Os sete, Sétimo, Bento, A casa e Estrela da Manhã, Dartana e Penumbra.

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