Archive for julho, 2018

Hey, Astronauta!

Posted in a vida como ela é, coisas on 07/24/2018 by André Vianco

 

Hey, Astronauta!

 

 

 

Ei, astronauta, liga o rádio ai um tiquinho. Eu tou do outro lado da nave e quero fazer uma transmissão.

A nave está perdida, mas está tudo bem. Uma coisa que aprendemos primeiro no treinamento específico para cruzar as estrelas e testemunhar a grandeza do Cosmo é que assim que ligamos os motores e partimos do espaço-deck, a nave já sai perdida. Em nosso mundo de jargões de comandos e de decisões que implicam em cálculos de velocidade e distância, em minimizar perdas, não computamos mais as toneladas de aço e ligas metálicas extraídas das entranhas da nossa Terra-Mãe. Aquilo vira outra coisa. A coisa que vai para Andrômeda

Um brinde à você astronauta.

Toneladas.

Andrômeda está vindo mesmo, vindo quente, falaram em 230 mil quilômetros por hora, astronauta… a gente move a essa velocidade também dentro dos limites da Via de Leite. Então, a qual velocidade a nave se move agora? Eu faltei nesse dia do treinamento.

A nave está perdida, mas, astronauta, sorria, queixo erguido, essa nave nunca foi nossa de verdade. Temos nossos trajes pesados e grossos e os capacetes que, quando precisamos, travamos e encalacramos dentro dessa coisa vistosa e reluzente tudo o que é necessário para continuarmos respirando. As vezes, astronauta, lembra do treinamento, só precisamos respirar. Pode estar difícil, mas respirar não é só tecido e nervos, capilares receptores e transformação de moléculas… respirar é preciso.

Ontem captei ruídos vindo de Andrômeda. Eram vozes diferentes. Vozes estranhas. Elas falavam de você astronauta. Falavam coisas que eu não queria ouvir. Levantamos nossos copos lá no deck do bar. Cheers! Cheers up! Ainda que seja egoísta, quando estamos escondidos no deck do bar, no cantinho escuro da nave, com nossos rádios ligados, captando risadas e aglomerados de estrelas que nos enviam sinais de bonança… estamos meio que rancorosos porque os astronautas querem ir embora. Somos crianças às vezes. E não vou pedir desculpas por isso, astronauta, lamento, mas não quero virar essa coisa para mim e nem para o seu engenheiro, o papo não é sobre a gente, mas só sobre nosso desejo de que você fique em paz e saiba que os botões estão verdes, a nave segue firme. Vai balançar no cinturão de asteroides, mas os diabos dos arcaicos, porém eficientes, giroscópios estão ai para que? Eles vã fazer o trabalho deles.

Levanta a cabeça. Todos os botõezinhos aqui estão no verde e você treinou uma equipe maravilhosa capitão. Eles farão o seu melhor, mas eu não duvido, nem por um segundo, que quando o primeiro alarme tocar, capitão, seu pequeno e treinado astronauta engenheiro número 2 da sua equipe saberá o que fazer.

Astronauta, falamos lá dos nomes que gravam no patch em nossos peitos, e rimos muito de tudo isso porque Andrômeda está vindo e esses nicknames tolos, esses avatares de quem somos ou queremos ser, gravados fundo em nossos uniformes são tão bestas, não é? Olha a distância. Vai demorar ainda. Andrômeda está longe, longe, mas é inexorável. Ela chegará e pronto. E não se preocupe com o choque de átomos. Os átomos se chocam o tempo todo, astronauta. Eu não faltei a essa aula. Astronauta, faz o seguinte… O nome que gravaram no patch do seu uniforme está com uma letra invertida. Não pense nisso. Feche o capacete, desligue os receptores de voz sintética. Apenas as vozes da sua equipe chegarão ai dentro se você quiser, nesse casulo do bem que vai lançar oxigênio ao seu redor. Tá, você vai ficar isolado e com frio, vai lembrar do dia em que você nasceu e também do dia que lhe disseram sobre Andrômeda e quando puseram a porra toda dessa nave, rangendo, sem a gente entender direito como segurava o manche, tocando a zilhão pelo tecido negro do espaço sideral, a milhão. A gente nunca presta atenção na primeira aula de Andrômeda e isso não é uma bronca, astronauta. Você já se fechou no seu módulo de brilho, imponência e suporte de vida. Se quiser saltar no escuro e experimentar como é estar lá do lado de fora da nave, ok. Você é o chefe aqui.

Conversa comigo, astronauta. Quando eu visitei sua cabine pela primeira vez eu tinha o quê? Seis anos, e ainda não eram sete. E falamos sobre palavras e eu ainda não sabia dizer sobre o que eu gostava, mas eu gostava de falar e, de alguma forma esquisita, quando falamos as palavras se enfileiram numa cadeia e deixam nossa boca batendo em moléculas e, elas já têm significado dentro de nós, as jogam ao mundo uma mensagem, a merda é que essa mensagem vibrante que rasga a distância e atinge os tímpanos deveriam atingir a pele primeiro… e eu falei que a nave devia pesar muitas “torneladas”. Você riu muito aquele dia, astronauta, até chorar. Você e o seu engenheiro, membro número dois da equipe porque eu sempre contei os co-pilotos como número 1. Vocês riram de mim porque eu disse “tornelada” e então fizeram a coisa mais sublime que existe na vida de um astronauta que também está dentro da nave que vai para Andrômeda. Você me ensinou uma nova palavra e que “tornelada” era tonelada e quando enxugou as lágrimas dos olhos, parou grave, em frente a mim, com seu uniforme reluzente, cheio de leds acesos e fios e canos e se ajoelhou bem ali na minha frente mesmo, tocando o chão de cacos de azulejo da nave e botou a mão no meu ombro e explicou, seríssimo, o que tonelada significava. Além do tonel, que eu nunca ia entender naquele momento, tinha também a coisa de não existir R no meio, a capacidade que dava para um comandante determinar como o motor ia se comportar com a movimentação de tanta massa, e chegamos pela primeira vez às dracmas (que me fascinam até hoje, astronauta). Nem você e nem eu sabíamos que ia me alimentar de palavras por um longo tempo e que, algumas vezes (olha, isso não é uma queixa não, os astronautas tem um montão de coisas para fazer) tudo o que eu tinha para estofar meu uniforme em noites de treinamento e incerteza eram novas palavras que recebia quando abria as antenas do meu radar.

 Você é um astronauta incrível. Foda-se Andrômeda. Eu nunca ligo para a velocidade de Andrômeda, mas hoje eu fiquei com raiva, a canjica estava ótima, os nomes faltaram letras nos trajes espaciais. No treinamento ensinam muito como a raiva é uma coisa que se esparrama e que não podemos trazê-la para dentro da nave. My bad.

Hey, Astrounata. Você é incrível e sua jornada até aqui tem sido muito boa.

Tears. Tears up!

Te amo meu amigo. Liga a porra do oxigênio e respira e olha para a sua equipe e explica parar eles o que é o caralho de uma tonelada nas costas.

Nos vemos em Andrômeda. Fim da transmissão.

Nem Santa Rita da Cassia irá protegê-los na próxima quinta, em Paraty!

Posted in literatura nacional on 07/21/2018 by André Vianco

Gente!

 

Achei meu lugar na Flip. Teremos lá uma casa bem sangrenta, da nossa querida Santa Rita da Cassia.

 

O tema central da minha noite será o Terror na Flip, quinta-feira, dia 26 de julho de 2018, começando às 18h30. Só que o Terror vai rodar até tarde por lá. Tem uma tag imensa na entrada do evento dizendo que é proibido para menores de 18, ou seja, é 18+, conteúdo impróprio, quem avisa, amigo é.

 

 

Ele está aqui esperando por você.

 

Na mesa em que participo, Terror na Flip, estarei muitíssimo bem acompanhado dos parceiros e guerreiros desse mundo das sombras, Raphael Montes, o diretor Marcos deBrito e o também escritor e diretor Alessandro Thomé e a lenda da provocação do mundo literário Delfin.

Não vejo a hora de botar pra arrepiar ao lado dessas feras.

Venham para a FLIP, Paraty é sempre uma delícia, e conversar sobre a arte e o fazer da literatura de terror e horror vai ser um arrepiante!

 

Endereço: Rua Doutor Pereira 396, Paraty-RJ.