Arquivo para fevereiro, 2011

O caso Laura – Capítulo 1

Posted in literatura brasileira, literatura nacional, novidades! with tags , , on 02/16/2011 by André Vianco

– Não sei se eu já te falei, pai, mas arranjei um amigo novo. Acho que faz umas quatro ou cinco semanas que nos encontramos todos os dias. Vejo mais ele do que vejo você, mas sei que você entende e não fica chateado com isso. Você sempre quis que eu me divertisse mais, sempre me empurrou para os carinhas interessantes quando eu estava no colégio, me encorajando e conversando comigo a respeito de tudo na vida.
Laura suspirou e ficou olhando para o pai, meio que esperando uma resposta, um sinal de aprovação.
– Você sempre fez o tipo de pai moderninho. Minhas amigas não acreditavam quando eu contava os papos que a gente tinha. Quando eu contava das vezes que você me tirava do quarto, da frente do computador ou da TV e fazia eu me trocar e colocar batom e tudo pra ir a uma festa ou baladinha com as amigas, elas surtavam. Diziam para eu cuidar de você até o fim da minha vida porque pai assim não existe.
O sorriso tímido que teimava em brotar nos lábios sempre morria quando chegava o silêncio. Ela falava com o pai usando um tom baixo na voz. Não que o pai fosse se importar com o volume, mas ela sempre teve aquilo, verdadeira aflição em ser notada e horror a incomodar os outros com sua voz aguda. Lembrava do desconforto que era escutar a si própria numa gravação caseira, falando para a câmera nas festas de amigas ou na formatura. Já que estavam em um hospital, tinha medo dos familiares do leito ao lado a ouvirem fazendo suas confissões eventuais ao pai acamado. Ela deixou outro suspiro fugir do peito e cruzar a distância entre ela e o pai calado. De tempos em tempos ela ajeitava o cabelo e remexia as rosas no jarro d’água improvisado como vaso. Casa de ferreiro, espeto de pau. Ela bem que podia trazer um vaso decente, mas nunca lembrava por conta de só visitar o pai quando dava na veneta ou quando estava demasiadamente deprimida, sem ninguém mais para escutá-la. Evitava estar ali, não por falta de paixão ou consideração, mas é que a jovialidade e a intensidade das palavras daquele homem em muitas conversas travadas num passado nada distante oprimiam ainda mais o peito daquela filha. Raro era o episódio em que ela entrava ali, naquele quarto, de caso pensado, com tudo planejado e esquematizado na agenda. Acontecia de ela estar ali. Muitas vezes com os olhos rasos d’água pela tristeza que pisoteava seu peito ou tomada pelas lembranças dos carinhos e cuidados daquele paizão ausente que segurava tanto a sua barra.
Laura ficou calada mais um tempo, passando a mão suavemente em seu próprio pulso. Parava, inconsciente, nas lombadinhas que tinham se formado ali, na pele. Quelóides, cicatrizes deixadas pelo desespero. Olhando para as rugas no rosto do pai, as papadas que começavam a crescer, o cabelo já branquinho apesar do topete cheio, tudo compondo e acusando o açoite certeiro do tempo, deu um novo suspiro. O pai continuou calado e ela, mesmo sem resposta alguma, seguiu seu misto de confissão e desabafo.
– O nome desse meu amigo é daqueles que a mamãe gostava, nome de anjo. Miguel.
Ela pausou a fala e olhou para o armário do leito vizinho. Lá, repousava uma estatueta de um anjo com uma lanterna de vidro e fogo agarrada pela mão.
– Já contei que estou trabalhando na igreja do centro agora? Acho que não. Os cupins aprontaram umas boas por lá. Pelo menos eu e a Simoneca teremos trabalho até o fim do ano. Benditos sejam os cupins, pai.
Novo período de silêncio. Laura suspirou antes de continuar.
– Não sei se é por causa do Miguel ou por sua causa, papai, que eu resolvi esperar mais um pouco – disse, em tom mais baixo ainda, as palavras entremeadas por fungadas.
Agora Laura chorava. Ficou calada por mais de dez minutos, olhando fixamente para o pai. Às vezes tinha a impressão de estar falando com uma casca vazia e isso a enchia de medo e solidão. O tubo de oxigênio entrando pela narina do pai era o que o mantinha vivo. Desde o acidente vascular cerebral seu pai ia desaparecendo aos poucos, desvanecendo como um sonho bom. Ela tinha verdadeira fobia ao passar do tempo, a necessidade de ter de visitá-lo naquele estado. Tinha a impressão que mais dia, menos dia, quando entrasse no quarto, não encontraria mais nada em cima da cama a não ser o pijama, o lençol e o cobertor – mesmo que a enfermeira e o doutor Breno dissessem que seu pai, de alguma forma, ainda estava ali. Saudável como um touro, seu pai nunca tinha tido nada na vida além de um resfriado corriqueiro ou uma incômoda dor de garganta. Nada de colesterol alto, nada de pressão alta nem diabetes. A única luta que o pai travara em nome da saúde tinha sido contra o vício do cigarro. Ainda assim, gabava-se, rindo com os amigos, dizendo que aquela tinha sido uma guerra preventiva. Sempre magro e ativo, sorridente e bem humorado, um porto seguro de equilíbrio e alto-astral para atracar e pedir guarida em períodos de tristeza e depressão. Um dia, simplesmente do nada, aquilo. Um mal-estar, uma dor de cabeça chata, um corpo que não se levantou mais da cama. Um telefonema da faxineira que ia, por sorte, toda quarta, avisando que o pai estava doente, esquisito, sem sair da cama, falando tudo embolado. Laura entrou em choque, achando que o pai estaria morto antes de ela chegar até a casa. Só conseguiu pensar em doutor Breno, o dono do hospital onde o pai trabalhava nos últimos doze anos. Doutor Breno veio pessoalmente e foi ele quem diagnosticou e tratou da internação imediata do amigo. Foi justamente nessa época que Laura desmoronou uma segunda vez.
A mulher enxugou as lágrimas sabendo que era isso que ele faria se estivesse desperto, ao seu lado. Mais uma vez ela encarava o pai e, sem se dar conta, alisava a cicatriz no próprio pulso. Não entendia como uns lutavam tanto para manterem-se agarrados ao fio da vida e outros, fracos como ela, entregavam-se de bandeja às teias da morte, de bom grado, de boa vontade, com todo desejo de ir-se embora para o outro lado do manto, e acabavam sendo regurgitados para essa existência que todos os conscientes teimavam em chamar de vida. Ela vinha perdendo as forças. Laura conseguia ludibriar a todos vestindo um sorriso ensaiado e desfilando com ele pela rua, pela padaria, entre os amigos de trabalho. Era mais fácil assim. Com um sorrisinho besta, ninguém notava a tsunami devastadora correndo e erodindo sua alma bem ali, dentro de seu peito. Queria que aquele sorriso na frente do espelho também a enganasse, forjando felicidade, mas não conseguia. E agarrava-se levemente à vida, esperando pelo pai. Tinha que ter certeza de que não iria desapontá-lo. O consolo e o único remédio vinha sendo aquela nova e inesperada amizade com Miguel, que mais que um bom amigo era um bom ouvido. Miguel não a julgava nunca. Miguel não queria saber de seu passado, se ela tinha sido ou não culpada e nem sabia que ela um dia tinha tentado acabar com a vida.

Pintando por aqui.

Posted in a vida como ela é, coisas with tags , , on 02/16/2011 by André Vianco

Ontem a tarde fui pintar minha tatoo de dragão. O trabalho do tatuador Marcos é muito bom. O site dele parece que está fora do ar no momento, mas deixo aqui o link para vc tentar mais tarde porque o site é muito maneiro http://www.tribaldelic.com.br Se disser que é leitor do Vianco ainda ganha desconto.

Eu sou um cabra macho, cascudo e só costumo reclamar de incomodo quando tenho cólica renal e olha lá, mas vou ser sincero, ontem a sessão de tatoo doeu pra caralh***, uma hora deu vontade de levantar, pegar aquela maca dos infernos e quebrar nas costas do tatuador. kkkkkk.
Ele explicou que estava aplicando um efeito degradê nas escamas do bicho e por isso precisava voltar com tinta mais clara em cima de onde já tinha tatuado e fincando aquelas agulhas infernais. Bem, a boa dica para quem quer entrar nas agulhas infernais pra estampar arte no corpo é abstrair. Respire fundo e mande ver. No final das contas, das milhares de picadas, se vc escolheu o desenho certo e o tatuador certo, pimba, tem um lance legal estampado na derme.

Fora a dor excruciante que vc joga pra debaixo dum tapete no cérebro, as sessões de tatoo são bem relaxantes. hahahaha. O tatuador deve ser um tipo de terapeuta, pq fica lá 2 a 3 horas trocando ideias, batendo-papo e, inevitavelmente, tatuador e tatuado acabam entrando em papos mais cabeças e sobre as coisas mais comezinhas da vida.

Estou postando essa foto, a tatoo não é em 3D, é minha pele que tá inchada ainda, a sessão foi ontem as 18h, por isso o braço tá lambrecado de pomada. Quando tiver terminadinha posto outra foto aqui pra vcs.

abraços.

André

Não, a tatto não é 3D, é que a minha pele ainda está inchada mesmo.

Posted in a vida como ela é, literatura brasileira, literatura fantástica, literatura nacional, novidades! with tags , on 02/11/2011 by André Vianco

Olá.

Almocei com o pessoal da editora Rocco essa semana e tenho boas notícias. O novo livro (O caso Laura) está confirmado para o mês que vem e deverá ser lançado no dia 21 de março. Ainda não definimos o local, mas o primeiro encontro com leitores deverá ser no Rio de Janeiro, cidade onde fica a editora. É claro que faremos outras noites de autógrafos que integrarão esse grande lançamento, afinal de contas não é todo dia que a gente lança o 13° livro da carreira. Faz a gente lembrar de um bocado de coisas e um bocado de gente. Lembrar de quando eu tinha só o primeiro livro, impresso por conta própria, levando o “Os sete” de livraria em livraria aqui de SP, roendo as unhas e imaginando se vcs iriam mesmo gostar da história louca de sete vampiros presos numa caixa de prata. Ainda bem que deu certo. hahahah.

Bem, é o meu primeiro livro publicado pela Rocco, eles estão dando um tratamento super dez para esse autor que vos escreve e estão dando o melhor tratamento para o livro pensando em todos vcs.

Vcs que moram em cidades que eu nunca visitei, mandem suas sugestões aqui nos comentários do post, vou encaminhar para a Rocco e ver por onde irei passar. Uma coisa importante é ter uma boa livraria ai na cidade que faça o convite a este autor.

Logo volto com novidades aqui no blog.

bjs e abraços.

André

Vou disponibilizar um trecho do livro nos próximos dias para dar um aperitivo para vcs que estão curiosos.

De passagem

Posted in Uncategorized on 02/06/2011 by André Vianco

Pessoas, antes que pensem que abandonei o blog, vim aqui dar uma palavrinha. hahaha. Bem, costumo postar quando tenho novidades quentes e coisa e tal, por isso que as vezes a coisa fica meio morosa por essas bandas. Ando trabalhando um bocado e, por essas e outras, demoro a postar.

Retomando os últimos assuntos, “O caso Laura” sai no final de março, assim que eu tiver a data exata e os locais dos eventos de lançamento, venho aqui avisar.

Agora retomo o livro “A noite maldita”, que se pam, sairá esse ano ainda também.

Bem, o bracinho da Bruna já está quase 100%.

E vamos que vamos.